Organizador/Docente: Silvio Gabriel Serrano Nunes
Carga Horária Total: 02h
Data: 30/07/2026
Horário: 19h-21h
Dia da Semana: quinta-feira
Modalidade: online
Público-Alvo:
Eixo Temático
Objetivos de Aprendizagem
Competências a serem desenvolvidas:
Justificativa
A importância de “As Brasas” reside no fato de que o romance condensa, em forma breve e altamente controlada, uma crise simultaneamente íntima e civilizacional: o reencontro entre Henrik e Konrad não funciona apenas como intriga de amizade rompida ou de adultério possível, mas como dispositivo para pensar a desintegração de um código de honra, a sobrevida envenenada da memória e a ruína de uma formação histórica centro-europeia que o livro transforma em drama moral e elegia cultural.
Tematicamente, o romance permanece decisivo porque articula amizade, honra, traição, memória, tempo, decadência, masculinidade e exílio sem reduzir nenhum desses termos a alegorias simplificadas: a amizade surge como vínculo assimétrico entre iguais desiguais; a honra, como tecnologia de autocontrole e autoimobilização; a traição, menos como fato conjugal isolado do que como colapso da inteligibilidade do mundo; a memória, não como recuperação transparente do passado, mas como reencenação obsessiva; o tempo, como duração acumulada que transforma quarenta e um anos em matéria ainda incandescente; a masculinidade, como regime de silêncio, dever e autovigilância; e o exílio, como condição existencial que excede a geografia.
Formalmente, “As Brasas” é um caso exemplar de romance em que quase nada “acontece” no presente exterior e, justamente por isso, quase tudo acontece no plano da linguagem, da espera e do juízo: o aparente diálogo converte-se em monólogo prolongado sob hegemonia da voz de Henrik; a lentidão do jantar e da noite dilata a expectativa até transformar a conversa num tribunal tardio; a tensão entre palavra falada, palavra calada e palavra escrita — concentrada no contraste entre a conversação e o diário de Krisztina — torna a obra uma reflexão sobre os poderes e os limites da linguagem; e a forte carga de detalhe material, dos móveis aos retratos, das armas à sala de jantar, não é decoração, mas sistema de significação, culminando no fogo e nas brasas como metáfora de uma paixão histórica e afetiva que já não irrompe como chama, mas persiste como calor residual, como sobrevivência de algo consumido e, ao mesmo tempo, inconcluso.
“As Brasas” interessa hoje não só à teoria literária, mas também aos estudos de memória, estudos de tradução, estudos da masculinidade, história intelectual, performance da oralidade, já que oferece um modelo excepcional de como uma cena mínima de fala pode condensar classe, império, desejo, violência, materialidade e ruína temporal.
Metodologias
Conteúdo Programático
As Brasas, de Sándor Márai.
Avaliação
Presença e participação em aula.
Referências Básicas
MÁRAI, Sándor. As Brasas. São Paulo. Cia das letras, 2020.
OLIVEIRA, Eduardo Moura Pereira. A nostalgia em tempos de exílio: as gramáticas emocionais do reencontro no romance As Brasas (1942). 2018. 172 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018.
OLIVEIRA, Eduardo Moura. Migração e processos de subjetivação em Sándor Márai: do exílio à nostalgia entre tramas biográficas, políticas e culturais. Ideias, Campinas, SP, v. 14, n. 00, p. e023012, 2023. DOI: 10.20396/ideias.v14i00.8671911. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ideias/article/view/8671911.
Acesso em: 11 abr. 2025.
Breve Currículo
Docente: Silvio Gabriel Serrano Nunes (Doutor, mestre, licenciado e bacharel em Filosofia pela USP, estágio de Doutorado na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne, advogado, bacharel em Direito pela PUC-SP, especialista em Direito Administrativo pela FADISP, docente da Escola Superior do TCM-SP; professor do programa de Mestrado Acadêmico em Direito Médico da UNISA).
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados ao curso: